A LIBERDADE EM GRACILIANO RAMOS

 

João Pereira Pinto - PUC/MG

 

 

            Esta comunicação é uma síntese do livro, de mesmo nome, editado em março de 2000, pela Ed. Alba, de Varginha-MG, fruto de pesquisa financiada pelo FIP (Fundo de Incentivo à Pesquisa) PUC-Minas com a concessão de duas bolsistas PIBIC/CNPq: Karla Ataíde Guedes e Mara Arruda de Faria Flor.

Esse livro visa rastrear, nos romances e memórias de Graciliano Ramos, a discussão sobre o problema da liberdade, uma vez que essa é pressuposto para a existência do sujeito ético, responsável pelo seu existir no mundo.

            Passa por três capítulos auxiliares: 1) Graciliano e o processo de humanização, 2) A representação de uma concepção de mundo, 3) O funcionamento das estruturas sociais, econômicas e políticas.

            No primeiro capítulo, aborda-se o trabalho de Paulo Meneses quanto às Origens da cultura, sintetizando as teorias de Lévi-Strauss, Karl Marx e Jacques Monod, que apontam as relações de parentesco, o trabalho e a linguagem como um marco da existência do homem como um ser cultural. Aborda-se também o trabalho de João Batista Libânio que aponta nas relações fundamentais do homem a estruturação de sua cosmovisão.

            No segundo, verifica-se, nas obras de Graciliano, como funcionam, nas personagens da ficção e nas pessoas de suas memórias, as relações consigo mesmo, com os outros homens, com o mundo e com o transcendente.

            No terceiro, pela via marxiana e a partir da consideração sobre os aparelhos ideológicos e de repressão de Althusser, verifica-se a crítica feita nas obras de Graciliano à imprensa, à justiça, à instrução, à religião e à repressão, como elementos que podem levar o indivíduo à alienação.

            E verifica-se, no quarto, o quanto é importante para Graciliano a posse da subjetividade, da consciência, do exercício da liberdade, para que o indivíduo aja responsavelmente, respondendo pelo seu existir.

            Tendo em vista ser este um trabalho interdisciplinar, pelo que se fez um Curso de Iniciação à Filosofia, quisemos passar por questões de Antropologia e de Ética.

 

Percorrendo a obra de Graciliano Ramos, através do que se passa com as suas personagens, de imediato salta aos olhos a sua preocupação com o processo de humanização.

            Falar de humanização é, segundo a Antropologia, caracterizar o processo de passagem da natureza à cultura. E isso implica tratar o problema da liberdade, da consciência, do conhecimento que o homem tem de si mesmo, dos outros homens e da realidade à sua volta; como também tratar de sua capacidade de intervenção no mundo.

Ao encaminhar esse texto, à procura do ponto de vista da ética, esclarecemos que entendemo-la, não como moral, enquanto o conjunto de valores e normas que orienta a vida de uma comunidade, mas como Filosofia Moral, que se ocupa, conforme Aranha e Martins (1986), com a reflexão sobre os fundamentos da vida moral. Isso implica identificar os constituintes do campo ético, daí o próprio conceito de sujeito ético como também escolher a escola de liberdade de que mais se aproximou Graciliano Ramos.

Partimos de uma síntese elaborada por Chauí (1995), que apresenta três grandes concepções filosóficas sobre a liberdade. A primeira, atribuída a Aristóteles e a Sartre, (com algumas variantes), onde “a liberdade é o princípio para escolher entre alternativas possíveis, realizando-se como decisão e ato voluntário”.

                        A segunda, atribuída ao estoicismo, a Espinosa, a Hegel e Marx, (também com variantes), pela qual conservam a idéia aristotélica de que liberdade é autodeterminação, mas não colocam a liberdade no ato de escolha realizado pela vontade individual, mas na atividade do todo do qual os indivíduos são parte. O todo é a natureza, para os estóicos e Espinosa; a cultura, para Hegel; e a formação histórico-social, para Marx.

            E a terceira grande escola, síntese das duas anteriores, pela qual se introduz o conceito de possibilidade objetiva, reconhece que nossas escolhas são condicionadas pelas circunstâncias naturais, psíquicas, culturais e históricas em que vivemos, mas que a liberdade é um ato de decisão e escolha entre vários possíveis.

            O possível é o que vem à existência graças ao nosso agir. A partir do que está dado, a liberdade encontra-se na disposição para interpretar os vetores do campo presente como possibilidades objetivas de novas direções e novos sentidos.

                       

            O exercício da liberdade comporta três momentos, pelo menos: 1) reconhece a contradição entre o ideal e a realidade; 2) busca a possibilidade objetiva de concretizar o que se põe como ideal; 3) decide agir e escolhe os meios para a ação.

            A partir dessa proposta de exercício da liberdade, feita pela Profª. Marilena Chauí, tendo caminhado à busca de “o mundo e o homem dos livros de Graciliano, nas relações do homem com o meio ambiente, com a alteridade, o transcendente e a sua autoconsciência”, queremos  surpreender a discussão que a obra de Graciliano pode sugerir quanto à questão “da liberdade humana face aos determinismos da natureza, das relações sociais, das relações de poder e das relações de produção”.

            Suas personagens encontram-se impedidas do exercício da liberdade, aprisionadas por alguma dessas forças. Conseqüentemente, às voltas com o problema moral.

            João Valério, de Caetés, ao buscar a história dos índios e não conseguir conhecê-la, em verdade reflete o desconhecimento de si mesmo e o quanto está encarcerado no desejo de afirmar-se como partícipe da elite na ordem sócio-econômica. Desconhecendo-se a si mesmo, não se afirma jamais como um sujeito e, conseqüentemente, as suas ações não são responsáveis, portadoras de uma resposta consciente, deliberada, livre, face aos acontecimentos. Ainda que seja o  elemento provocador da decorrência dos fatos que se desenrolam na história, é muito mais um objeto de uma certa ordem e tradição do que sujeito que age moralmente.

 

            Paulo Honório, de S. Bernardo, como os protagonistas das outras histórias, não é livre. Encontra-se preso a um desejo de posse, cuja força encobre todas as outras. Comporta-se dentro da ideologia dominante, sem ter consciência desse fato, até que ocorre a morte de Madalena. Só então é que se põe a buscar as razões de seu fracasso.

            Luís da Silva, de Angústia, funcionário público e literato, habita o mundo da cidade, se angustia com a desigualdade social e com outras formas de expressão da injustiça. No entanto, não consegue compreender a si mesmo e tornar produtiva a sua angústia; tomando, por exemplo, o caminho de “o homem revoltado” de Camus que, encontrando o absurdo, luta contra ele.

            Tanto quanto as outras personagens, Luís está encarcerado na estrutura sócio-político-econômica como objeto, sem a condição de sujeito. Não é portador de uma consciência que reconhecendo-se a si mesma possa participar do processo de transformação dessa realidade. Não sendo livre,  os seus atos são inconscientes e, mais do que isso, inconseqüentes. Ao eliminar Julião Tavares, não modifica a estrutura que produz outros indivíduos semelhantes. Ao permitir o aborto que Marina realiza, não impede que haja outras relações como essas, inconscientes e vítimas do poder econômico.

            Fabiano, de Vidas secas, carece do poder da linguagem. Encarcerado no mundo da seca e sem a menor condição de romper com o seu ciclo, habita o ambiente do latifúndio rural e não consegue se contrapor à estrutura sócio-político-econômica por falta de compreensão do funcionamento dessa mesma estrutura. Daí, não tem poder de transformar o que está à sua volta. Na sua extraordinária simplicidade, não é propriamente o sujeito de sua vida. Os seus atos não são fruto de escolha, de deliberação, mas de aceitação da força e do peso da tradição.

            Passando da “ficção à confissão”, como diz Antônio Cândido, Graciliano põe-se a si mesmo em Infância e problematiza a construção de sua vida dentro de um quadro de repressão, tanto em família quanto na escola, de tal sorte a refletir uma enorme quantidade de força embotada por esse sistema.

            Esse sistema repressor, ao invés de produzir um sujeito livre, responsável, otimista face às possibilidades da vida, produz um indivíduo amedrontado, pessimista, cuja vontade não é dirigida pela razão, mas submetida ao poder do outro.

            Memórias do Cárcere, é, sobremaneira, o exemplo mais marcante dessa repressão, que iniciada na família, prosseguida na escola e nas relações sociais, resulta na figura do Estado como o corolário da despersonalização e até da fabricação da covardia.

            Dessa forma, uma rápida caminhada pelos livros de Graciliano, torna-se suficiente para demonstrar o quão importante é a liberdade para esse autor.

            Pelas suas obras, faz-se uma crítica profunda a toda forma de cerceamento ao desenvolvimento da potencialidade humana. Critica-se toda forma de embrutecimento, de despersonalização, de produção da inconsciência e da prisão às ideologias que acobertando o conhecimento da realidade reduzem o indivíduo a objeto de uma engrenagem.

            As personagens das histórias de Graciliano, assim como as pessoas de suas memórias, em verdade são apontadas como carentes do conhecimento de si mesmas, dos outros homens e da estrutura na qual funcionam. Estão como que  a mostrar a necessidade de percorrer o caminho da consciência que, funcionando dentro das relações de poder e de produção, são mais dinâmicas ou menos dinâmicas, mais fortes ou mais frágeis, por serem mais esclarecidas ou menos esclarecidas.

            Dessa forma, o homem se torna propriamente humano pelo desenvolvimento de sua consciência. E isso se dá pelo enfrentamento do trabalho à medida que o homem visualiza um fim para a sua atividade, buscando os recursos que podem estar à sua disposição e transpondo os obstáculos que se colocam à sua frente.

            De outro modo, torna-se humano à medida que possuindo a memória pode lançar mão de seu passado para que este, iluminando o presente, constitua condição de elaborar projetos para o futuro.

            Portanto, levando-se em conta a realização do trabalho, dá-se o conhecimento da história pelo que o homem toma a vida em suas mãos, construindo-se como um sujeito que conhece o que realiza e responde pelo que faz. Disso também resulta que o homem se constrói pela linguagem à medida que consegue dar nome às coisas, por ter consciência do que existe ao seu redor e por ter consciência do valor e do significado das coisas de sua vida.

            Enfim, o homem se difere dos animais das outras espécies por ser livre ou poder sê-lo. Mas, a liberdade se constrói pela consciência que se apropria da realidade à medida que pode nomeá-la.

            Nesse sentido, sendo o homem tanto produtor quanto produto da cultura, deve compreender o funcionamento das estruturas sociais, políticas e econômicas, pois, é à medida que se compreende a lógica da alienação, que se realiza o processo da desalienação; à medida que se compreende a estrutura da ideologia dominante é que se constrói o discurso contra-ideológico. E, à medida que se tem a percepção do determinismo, da fatalidade, se descobre o que está e o que não está em seu poder realizar.

            Daí, a necessidade de compreender a si mesmo, as outras pessoas, o mundo no qual está colocado e as forças que o transcendem. Essa compreensão deve trazer-lhe a força interna, a deliberação, a construção da vontade, como desejo orientado pelo conhecimento, pela razão, dando-lhe a condição de agir livre e responsavelmente, ainda que encarcerado nas celas do Estado, como esteve Graciliano nos anos de 1930 e 1936.

Dessa forma, experimentamos como que um apelo para a dimensão da liberdade que constitui o homem distinguindo-o dos outros animais e que se estrutura a partir da descoberta de si mesmo em relação aos outros e ao mundo, à medida que se compreende as estruturas de que os indivíduos são parte, podendo então transpor ou, pelo menos, compreender os obstáculos que se põem à sua frente.

            Diante de sua própria expressão:

 

Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer” (M. C. 1, p. 34).

 

vimo-lo pelos seus livros se mexer.

Enfim, cada uma das suas histórias leva-nos a pensar num novo homem, livre da miséria tanto em seu aspecto material quanto cultural, livre das amarras da alienação, livre dos véus da ideologia e problematizando a estrutura social, econômica e política, elas iluminam a busca do sujeito que pelo encontro com o outro faz-se consciente de si mesmo.

            Em toda a sua obra, vimos presente sempre, pelo menos, essas duas questões: Que coisa é o homem? Como é o seu agir? E para terminar, buscamos o que dele escreveu Tristão de Atayde:

 

Graciliano Ramos ficará na história de nossas letras como a imagem do escritor em sua mais pura expressão. Isto é, de homem e de obra incorporados numa mensagem e num exemplo em que a beleza estética da obra e a pureza moral do homem constituem um monumento perene em nossa cultura de todos os tempos.

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando:

introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de

Janeiro: Ed. 34, 1992.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995. p. 334-368: o mundo

da prática.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Tradução de Chaim Samuel Katz,

Eginardo Pires. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.

LIBÂNIO, João Batista. Formação da consciência crítica: subsídios filosófico-

culturais. 3. ed. Petrópolis: Vozes, Rio de Janeiro: Conferência dos religiosos do

Brasil, 1982.

MENESES, Paulo. As origens da cultura. SÍNTESE NOVA FASE. Belo Horizonte, v. XV, n. 42, p. 13-21, jan./abr., 1988.

PINTO, João Pereira. A liberdade em Graciliano Ramos. Varginha-MG: Alba, 2000.

RAMOS, Graciliano. Angústia. 20. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.

_____. Caetés. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.

_____. Infância. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.

_____. Memórias do Cárcere. 12. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.

_____. S. Bernardo. 32. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.

_____. Vidas secas. 41. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.

TRISTÃO DE ATHAYDE (Alceu de Amoroso Lima). Os ramos de Graciliano. In: RAMOS, Gracilianor. Viventes das Alagoas. 9. ed. Rio de Janeiro: Record, 1070. p. 189-193.